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“A música e o cancioneiro devem estar alinhados com a verdade”

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São nos versos e na melodia da música “Procissão dos Retirantes”, que o compositor Pedro Munhoz aflora como o cancioneiro dos movimentos sociais. Esta foi a música vencedora do 1° Festival Nacional da Reforma Agrária, em 1999.

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(9’40” / 2.21 MB) - São nos versos e na melodia da música “Procissão dos Retirantes”, que o compositor Pedro Munhoz aflora como o cancioneiro dos movimentos sociais. Esta foi a música vencedora do 1° Festival Nacional da Reforma Agrária, em 1999.

“Eu não consigo entender / Que nesta imensa nação / Ainda é matar ou morrer / Por um pedaço de chão”

A canção presta uma homenagem aos trabalhadores sem terra que tombaram no Massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido em 1996, no Pará. De “Procissão dos Retirantes” em diante, Munhoz rodou o mundo com suas canções que tratam de temas sociais, políticos e também sentimentos de amor.

Outra música que marca sua trajetória é “Canção da Terra”, com os versos “Romper as cercas da ignorância / Que produz a intolerância / Terra é de quem plantar”, a canção teve uma regravação feita pela companhia “Teatro Mágico”.

Além das letras e melodias críticas ao modelo de exploração dos trabalhadores, o músico gaúcho não participa da indústria fonográfica e vende seus discos nos shows e através do seu site (www.pedromunhoz.mus.br).

Para conhecer um pouco dessas histórias, a Radioagência NP entrevistou Pedro Munhoz. Para ele, a música tem “o compromisso de estar alinhada com a verdade, com as mazelas do povo, contando que o mundo não é tão ‘cor de rosa’ assim”.

Radioagência NP: Como surgiu o seu interesse pela música, a poesia e o violão?

Pedro Munhoz: É uma história bem cumprida, porque só de violão já são 36 anos, desde 1976 quando surgiu o violão nas minhas mãos através de uma pessoa muito querida, que era minha madrinha, a Dadá que me emprestou o violão para que ali eu aprendesse os primeiros acordes. Mas a música sempre esteve presente na minha vida, até porque eu venho de uma família do interior, de uma cidade chamada Beira do Ribeira, aqui do lado de Porto Alegre (RS). Meu pai sempre foi um homem de esquerda, de política, então no período de repressão da ditadura militar, meu pai foi preso. E eu tinha um irmão que sempre foi ligado às artes, à cultura. E dentro disso, a minha mãe que era uma dona de casa, mas tinha um bom gosto musical, afinadíssima, até hoje. E dentro dessa coisa da política, da arte e da cultura, eu fui moldando, digamos assim, meu gosto musical e minha personalidade musical.

Radioagência NP: Quais são as referências musicais no seu processo de composição?

PM: Quando surge essa MPB [Música Popular Brasileira], que permeou os anos 1960 e 1970, digamos aí, Chico Buarque, Milton Nascimento, todo esse pessoal da dita MPB. Um pessoal mais alternativo também foi surgindo, então passou pela minha vida Alceu Valença, Geraldo Azevedo, o próprio Elomar, Vital Farias. Gente da América Latina também, como Atahualpa Yupanqui, Alfredo Zitarrosa, Jorge Cafrune, José Larralde – são homens do Uruguai e da Argentina –; Alí Primera, da Venezuela; Victor Jara, do Chile; Violeta Parra, do Chile. Na minha casa também passava de Johann Sebastian Bach a Teixeirinha; de Luiz Gonzaga a Vivaldi.

Radioagência NP: Como você definiria a música que você compõe e toca?

PM: De vez em quando tem coisas, assim, que eu me julgo muito romântico, muito lírico, e daqui a pouquinho eu sou extremamente panfletário quando tenho que dizer algumas coisas. Porque quando as coisas têm que ser ditas, elas têm que ser ditas, existe a urgência de dizer. E aí, muitas vezes a gente diz com uma rispidez, uma coisa cortante, mas alguém tem que fazer o trabalho, e eu me proponho a isso. E é um trabalho que eu reconheço que é um trabalho que não tem mercado, que está fora da indústria cultural, está fora de todo um processo mercadológico. A gente viaja e caminha na contramão, mas eu sabia desde o início, há 30 e tantos anos atrás que seria assim.

Radioagência NP: “Procissão dos Retirantes” foi a música vencedora do 1° Festival Nacional da Reforma Agrária, realizado em Palmeira das Missões (RS), em 1999. Sobre o que é a canção e o que a vitória nesse festival representou para você, pessoalmente, e também para a sua carreira?

PM: Essa música foi extremamente representativa, ela segue sendo extremamente representativa em minha vida. Uma canção triste, que fala sobre o Massacre de Eldorado dos Carajás (no Pará), que houve em 17 de abril de 1996. No dia do Massacre, quando houve o Massacre, logo após, quando estoura no país pelos canais de televisão, notícias sobre o Massacre, eu, por um ato de profunda indignação, eu sento e começo a compor a melodia. Quando chega a noite, perto dos noticiários da noite, eu disse “vou começar a colocar a letra”. E comecei a escrever a letra, mas a letra vinha arrancada, ela vinha carregada de uma profunda revolta. Uma coisa que eu lembro que ao mesmo tempo em que escrevia, eu soluçava – eu vivo a intensidade daquilo que eu estava escrevendo. E, muitas vezes, a gente perde um pouco do racional, perde um pouco da questão técnica do que tu estás escrevendo. E eu parei de escrever ali pelo meio, mal tinha começado a escrever, acho que só a primeira estrofe. Aí eu falei “isso aqui não vai ficar legal essa letra”; alguma coisa me dizia que a letra não era para eu escrever. Aí eu liguei para um grande amigo meu, um grande poeta, chamado Martim Cesar Ramirez Gonçalves. Na época, eu liguei para a casa dele e disse: “Martim, cara, eu acabei de compor a melodia de uma música que fala sobre o Massacre”. E ele: “me manda essa melodia, porque eu quero escrever algo, eu também estou aqui para escrever algo e não consigo, quem sabe a tua melodia me inspira”. E é por telefone que eu peguei o violão e ele gravou do outro lado, cantarolei a melodia para ele, com o violão encostadinho no telefone. Dentro de alguns dias, poucos dias, eu recebi uma carta com a letra escrita, prontinha. E aí comecei a cantar, comecei a peregrinar o estado, comecei a andar por todos os lugares cantando essa canção. Quando iria completar três anos do Massacre, veio alguém do Movimento [dos Trabalhadores Rurais Sem Terra] e disse assim: “vai ter um Festival Nacional e seria interessante tu colocar essa canção”, e me entregou um regulamento com uma ficha de inscrição. Aí eu lembro que coloquei duas canções, entre elas “Procissão dos Retirantes”. Quando chegou no sábado [do Festival], quando apareceram as doze ou catorze classificadas, que estariam fazendo parte do disco, as duas canções estavam fazendo parte do disco. Aí eu disse: “Olha, a gente não quer nem ganhar mais nada. Só em fazer parte desse CD, a gente sabe que isso vai para o mundo todo”. E no domingo, fomos para o palco e apresentamos. Quando nos chamaram, que nós tínhamos ganhado o primeiro lugar, bom, aí, devo te dizer que foi uma emoção muito grande. Dali em diante, a nossa vida musical ganhou o mundo. Hoje, a gente pode dizer que o Movimento, e a gente deve isso ao Movimento Sem Terra, que a nossa canção, o nosso trabalho musical está nos cinco continentes. A música “Procissão dos Retirantes” roda nos cinco continentes, juntamente com “Canção da Terra”, que foi uma canção que eu fiz um ano depois e fiquei um ano sem cantar, porque achei que “Canção da Terra” era uma música que não ia ter muita repercussão. Um ano depois, quando eu resolvo cantar, eu nunca mais parei de cantar também “Canção da Terra”.

Radioagência NP: Qual você acredita ser a importância da música, da arte engajada, que você e outros artistas fazem para a luta dos movimentos sociais e para a sociedade no geral?

PM: A arte sempre foi uma ferramenta importantíssima dentro do processo social. Está aí o capitalismo, que prova isto com as coisas que estão na indústria cultural. Basta tu ligar a televisão e ver esses folhetins, essas novelas baratas, em que vulgarizam as relações, vulgarizam a mulher, vulgarizam todo um processo de relações humanas. A arte tem o compromisso de dizer o contrário, a arte tem que ser uma ferramenta de construção, estar alinhada com o “humano”, estar alinhada nesse novo tempo. E a música, o cancioneiro – como é o nosso caso –, ela tem esse compromisso de estar alinhada com a verdade, com as mazelas de seu povo, contando que o mundo não é tão “cor de rosa” assim, que o mundo não é tão maravilhoso assim. O compromisso que nós temos é de transformar, que possa contribuir na transformação da sociedade.

De São Paulo, da Radioagência NP, Vivian Fernandes.

31/08/12