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“O que é música caipira? É música brasileira.”

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Em entrevista a Radioagência NP, “Zé Mulato e Cassiano” falaram do papel da música caipira e da diferença do estilo musical defendido por eles para o sertanejo “comercial”.

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(10’51” / 2.49 Mb) - Há mais de 35 anos juntos, os cantores “Zé Mulato e Cassiano” não escondem o orgulho de trazerem na voz e na viola a música caipira. Para a dupla, com 16 discos gravados e mais de 300 músicas compostas, o gênero representa a autêntica música brasileira.

Para os irmãos, nascidos na cidade de Passa Bem (MG), não existem dificuldades em falar das situações e histórias vivenciadas no campo, já que eles fazem parte desta realidade. Como diz Cassiano, eles se sentem felizes como “brasileiros, mineiros, do pé rachado”.

Em entrevista a Radioagência NP, “Zé Mulato e Cassiano” falaram do papel da música caipira e da diferença do estilo musical defendido por eles para o sertanejo “comercial”. Eles garantem que não sonham em fazer parte do espaço midiático, e também fazem críticas às diferentes “modalidades” de sertanejo criadas por essa indústria cultural. No chamado “sertanejo universitário”, Cassiano diz não encontrar nada de “sertanejo” nos meninos da cidade que cantam o gênero.

Entre opiniões e piadas, a dupla também não deixou de lado o já conhecido bom humor dos irmãos. No entanto, o significado da música para eles é sério. Zé Mulato afirma que o compromisso da música feita por eles é sempre levar uma mensagem simples para as pessoas. Mas é claro, sem perder os toques de brincadeiras.

Ouça agora a entrevista.

Radioagência NP: Zé Mulato, como você define a sua música, o sertanejo de raíz?

Zé Mulato: A gente até já tem dito em algumas letras que a gente escreve e que nós preferimos falar “caipira”, porque isso quer dizer autenticidade e o máximo de verdade possível. E a gente faz questão de pregar isso: simplicidade com alguma coisa que tem a ver com a nossa cultura. E assim agente tem sido bastante aceitos, tanto pelos jovens como pelos mais maduros. A gente acha que está no caminho certo. Sabemos do nosso tamanho, a gente não sonha com aquele fuzuê de mídia. A gente é bem recebido pode se dizer no Brasil todo.

Radioagência NP: E Cassiano, qual a diferença da música que vocês fazem para o sertanejo “comercial”?

Cassiano: Menina, essa é uma pergunta que se a gente não tomar cuidado para responder acaba sendo mal entendido. Nós cantamos música sertaneja, somos do sertão, da roça e tudo mais. Hoje eles foram inventando nome para o sertanejo, que já virou outra coisa. Agora “sertanejo universitário”, eu não sei que sertanejo vão inventar agora, mas de sertanejo não tem nada. São meninos todos urbanos, que pegaram parte daquele lixo europeu e etc., e inserem alguma coisa aí no meio e chamam de sertanejo. Agora não sei o que vão inventar mais. Por isso que preferimos que nos chamem de “caipira”, que é para não misturar. Não tenho nada contra eles, mas tenho a favor de nós que cantamos música caipira. E o que é música caipira? É música brasileira. E é isso que nós somos: brasileiros. Temos muito orgulho de sermos brasileiros, mineiros, do pé rachado. Gostamos de cantar e que nos chamem de caipira para ninguém confundir com a coisa horrorosa que está aí. Amém.  

Radioagência NP: Como vocês conseguem retratar a realidade camponesa na vida de vocês?

Zé Mulato: Não é que a gente escreve sobre essas coisas, a gente é essas coisas. Eu presto muita atenção no que é a natureza, como que funciona, o que eu aprendi do tempo do meu avô para cá e eu vou comparando e vendo que o tem para nós vermos da natureza, nessa parte que vocês chamam de ecologia, o que tem para a gente ver ainda está visto só uns 20%, 15%. Então, precisa estudar isso de pertinho. Por isso que a gente pode falar sobre a natureza, sobre o que acontece realmente. A gente procura registrar e deixar aí, alguém vai pegar isso e estudar, saber, um pouco mais para mostrar para as pessoas.

Cassiano: A gente sabe que isso é utopia, mas um dia que o ser humano entender o que Deus falou lá no começo: “Tu és pó e ao pó retornará.” O dia que ele entender que ele é terra, que ele não é melhor do que nada, que ele faz parte da natureza, a humanidade vai estar boa. Mas até lá, enquanto ele achar que é um trem diferente, não vai dar certo.

Radioagência NP: Há quanto tempo vocês cantam juntos? Contem um pouco da história de vocês?

Zé Mulato: Em 1974, nós formamos a dupla oficialmente. O pai lá em cima que formou porque eu nasci, depois de mim veio mais dois, e ele é o quarto irmão.

Cassiano: A gente considera quando nós gravamos o primeiro disco, que foi em 1978. Então, é por aí 35 anos.

Zé Mulato: Só de gravação. A dupla foi formada em 1974, vocês não eram nem planejados ainda.  

Cassiano: Nós naquela época estávamos dentro daquele processo de poluir [as mentes] dos jovens. Naquela época no meio do processo “brabo” de arrebentar com o resto da cultura nós entramos cantando música caipira. As pessoas gostavam da música caipira, que é coisa dele, é sua. Se você é brasileiro, é seu. Mas elas escutavam o disco escondido, tinham vergonha.

Radioagência NP: E quantos discos vocês já gravaram, Zé Mulato?

Zé Mulato: 16, entre LP e CD. Eu calculo gravado já tem aí 16 CD´s com o mínimo de 15 músicas cada um. Aí é fácil, a matemática não fica difícil. Mas escrita e tal deve ter umas 300 composições já. Então, a gente tem munição para atirar muito tempo. Não adianta falar que a [música] caipira esta sumindo porque enquanto Deus der vida para nós dois continuarmos juntos e trabalhar vai haver música caipira, porque nós não queremos fazer de outra. Poderia, mas não vale a pena.

Radioagência NP: Cassiano, vocês identificam a música de vocês como música caipira. Pensando nesse sentido, o que é música para vocês? E qual função ela tem?

Cassiano: O que é música? Você quer saber mesmo? Então, vamos começar do começo. Música é ritmo, harmonia e melodia. Isso é uma música. Não importa qual é o estilo, de qual país seja, isso é música. Agora no nosso caso, é a música caipira. Tem duas figuras importantes que às vezes a gente fala delas, e a gente fica meio bravo com elas. Uma é o [dicionário] Aurélio com a definição de caipira dele que foi no mínimo infeliz. Outra foi Monteiro Lobato que criou um caipira preguiçoso, lombriguento, inútil. E eu fico puto porque eu nasci na roça e eu sei a roça é dura, difícil, mas não tem preguiçoso, nem sem vergonha. E o que é pior essa caricatura que o Monteiro Lobato criou – eu não estou diminuindo o valor literário, e etc. dele não – estou dizendo que ele criou um tipo de caipira que fica na cabeça das pessoas. Imaginam que nós caipiras somos burros, alguma espécie de trogloditas e tudo mais e não é isso que caipira é.

Zé Mulato: O que eu acho que ela quer saber é o seguinte: o que é a música para nós. Igual ele falou o princípio da música é esse, ritmo, harmonia e melodia. Mas no nosso caso a música é o veículo, é a condição que nós temos de passar nossa poesia, nosso modo de sentir as coisas, no nosso caso caipira, como ele disse. E qualquer música ela leva a transmissão de um sentimento, então, portanto, toda música quando a intenção é passar sentimento ela é ótima. Mas toda boa espiga pode ter caruncho. Então, a música para nós é o meio que nós temos de chegar até o sentimento das pessoas com a nossa expressão. No nosso caso, é a poesia mais simples possível porque o povo que a gente prega é para esse povo simples. O povo simples não quer dizer pobre, estou dizendo aquele cara que tem o coração simples.

Cassiano: Eles vão encucar, “que diabo é caruncho”? É um dos exemplos do que eu falei para você tem palavras que nós falamos em música, que nós conversamos, que a gente faz questão de explicar porque o pessoal vai pensar: “Que diabo é isso?” É trem da nossa terra, da nossa linguagem, que foram se perdendo no tempo, mas o caruncho continua aí comendo milho do mesmo jeito.

Zé Mulato: O caruncho é um inseto pequeno que rói milho, principalmente, rói madeira, rói tudo, estraga cama, mas o milho ele estraga mesmo.

Cassiano: Eu acho que poderíamos fazer um dicionário de coisa caipira, mas não sei se ia prestar. Por exemplo, tem o caruncho que eu falei. Aí o rapaz fala “Ó compadre, o carangonço mordeu ele”. Carangonço é escorpião. Quando o sujeito está assim fraquinho [fala]: “Meu compadre tá num canguari, rapaz”.

Zé Mulato: Canguari é anemia profunda. Vamos largar mão desse dicionário caipira quando vocês quiserem saber alguma coisa de matuto fala com a gente. A gente não faz figura nós somos assim.

De São Paulo, da Radioagência NP, com colaboração de José Coutinho Júnior, Daniele Silveira.

14/09/12