EM DEBATE: Mesmo com leis mais severas, produção de armas de fogo aumenta no Brasil Imprimir E-mail
clique aqui para ouvir (5´55´´ / 1,35 Mb) - Uma pesquisa divulgada recentemente pelo grupo suíço "Small Arms Survey", do Instituto de Estudos Internacionais de Genebra, coloca o Brasil entre os maiores fabricantes de armas de pequeno porte do mundo. Com o estatuto do desarmamento regulamentado em 2004, o país ficou na expectativa de leis mais severas de fiscalização e controle de porte de armas de fogo. Porém, a pesquisa aponta que em cinco anos, o Brasil produziu cinco vezes mais armas de fogo do que o que foi recolhido durante a campanha do desarmamento, entre 2004 e 2005.

O governo brasileiro alega que com as proibições previstas neste estatuto, como o porte de armas por civis - com exceção para casos onde há ameaça à vida da pessoa - os altíssimos índices de mortes por arma de fogo diminuíram. Estes números são de aproximadamente 40 mil por ano. Porém em 2005, ano em que foi realizado o plebiscito, as estatísticas da campanha favorável ao desarmamento, mostravam que muitos desses crimes eram cometidos com armas ilegais.

Para avaliar as informações divulgadas pela pesquisa do Small Arms Survey e fazer uma relação com as causas da violência no país, a Radioagência NP, conversou com Jayme Benvenuto, membro da coordenação colegiada do Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop) em Recife (PE). Ouça agora a entrevista.

Radioagência NP: Jayme, qual a sua avaliação com relação às estatísticas do órgão ligado ao Instituto de Pesquisa de Genebra?

Jayme Benvenuto: Eu acho que isso só vem confirmar o que a gente vê na prática. Há algum tempo atrás foi instituído o estatuto do desarmamento, nós temos então uma lei relacionada ao controle de armas. Por outro lado nós vemos as empresas fabricando e vendendo mais armas. Sabe-se lá o que acontece no ponto de vista legal, ou seja, se estas armas estão sendo vendidas dentro da lei. Porque a rigor, pela nova lei, o acesso e a venda de armas é pra ser muito mais rigoroso. Se for verdade que a gente tem tido um nível maior de venda de armas, é muito preocupante. Na realidade o que pode ter ocorrido foi uma investida da indústria, até mesmo para desmoralizar a lei. Com isso voltamos ao estado de barbárie que o Brasil está vivendo.

Radioagência NP: E porque temas como estes somente são questionados no país em fase de extrema violência?

JB:Quando você admite a possibilidade de responder a violência também com violência, é claro que aumenta o nível da violência. E isto é o que está por trás de todas estas propostas relacionadas a você ter mais armas dentro de casa, como resposta diante das possíveis violências que você tem, até mesmo usar armas dentro do carro. Isto tudo só fará aumentar a violência e infelizmente é esse o quadro que temos vivido.

Radioagência NP: Como sensibilizar a sociedade para a gravidade desta violência sendo que campanhas como o plebiscito do desarmamento não convencem a população?

JB: A violência tem várias formas e não existe uma única forma de dar resposta a ela. Acabar com a violência, não vamos conseguir nunca, mas é possível no meu entender diminuir drasticamente. A partir de políticas sociais, que venham melhorar a capacidade de vida das pessoas. Um aspecto extremamente importante é que aqui nós temos uma cultura de violência e por isso é preciso educar as pessoas. Temos também muito a fazer em termos de dotar este estado de melhores condições para investigação dos crimes. Os poderes de modo geral estão muito fragilizados. O poder judiciário nós sabemos que é muito corrupto, o poder legislativo também, enfim os poderes de modo geral. As polícias estão totalmente sucateadas, isto se reflete em índices muito baixos de controle dos crimes.

Radioagência NP: E o governo tem conseguido fiscalizar estas leis referentes à segurança pública?

JB: Quando não foi aprovado o maior controle de armas no país, como se queria, de qualquer forma a gente ficou contente, porque de certa forma a lei ela em si já é bastante dura. Mas o problema volta: é o problema do Estado fiscalizador. Caberia ao Estado fiscalizar, e de forma bastante severa, a aplicação desta lei. O governo não tem investido na medida do necessário na questão da segurança pública, tanto que os setores que deveriam combater a violência e dar respostas a esta violência estão sucateados, talvez o mais revelador deles seja justamente a polícia.

Vocês acabaram de ouvir a entrevista com Jayme Benvenuto, membro da coordenação colegiada do Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop) em Recife (PE).

02/04/07
 
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