EM DEBATE: Projeto de transposição do Rio São Francisco é uma falácia, aponta estudo da WWF Imprimir E-mail
clique aqui para ouvir(5´44´´ / 1,31 Mb) - A Organização Não Governamental (ONG) WWF Brasil aponta em recente estudo que obras de transposição não tem alcançado êxito no mundo. A ONG analisou obras de cerca de sete países, incluindo o projeto de transposição das águas do Rio São Francisco - que enfrenta uma forte pressão da sociedade civil organizada. Há cerca de uma semana mais de 1,5 mil pessoas acamparam em área próxima ao município de Cabrobó (PE), um dos trechos onde a obra será iniciada.

Embora o governo federal tenha descartado o diálogo com a sociedade, os acampados pedem a paralisação das obras para negociarem uma melhor maneira de levar água à população do semi-árido. Segundo a WWF, apenas 4% desta água deslocada com o projeto será para o consumo da população e 70% para projetos agriculturáveis de irrigação, o que, segundo os movimentos populares, favorecerá apenas setores do agronegócio. Entre eles, a criação de camarão e a fruticultura.

Além disso, o estudo coloca as obras de transposição como de alto custo e com danos irreversíveis às fontes de recursos hídricos. Para saber que problemas representa a transposição de águas, a Radioagência NP conversou com Samuel Barreto, coordenador do Programa Água para a Vida da WWF-Brasil. Ouça agora a entrevista.

Radioagência NP: Porque a WWF concluiu que a transposição de águas não é a alternativa mais adequada para solucionar os problemas de falta de água no mundo?

Samuel Barreto: Foi um estudo realizado pela Rede WWF, onde se levantou experiências adotadas em sete países e aqui, no caso do Brasil, com a análise da transposição do São Francisco. Uma das conclusões é que há ênfase de forma exagerada que as grandes intervenções por meio de obras de engenharia artificial de solucionar esta crise de gestão dos recursos hídricos e até mesmo do abastecimento. Em quase todos os casos que foram avaliados foi percebido falhas como na hora de operacionalizar estes projetos. O custo acaba sempre sendo muito maior do que o previsto, além da falta de transparência, problemas com os rios levando em muito casos à danos irreversíveis e os benefícios que são concretizados de acordo com o que foi previsto.

Radioagência NP: Além de problemas referentes ao alto custo, o estudo afirma que a transposição também traz prejuízos aos recursos hídricos. Quais seriam estes prejuízos?

SB: Quando você está tirando água de um lugar para mandar para outro, o que se percebeu nestes casos dos projetos analisados é que você acaba comprometendo de certa forma o uso da água, os diversos usos naqueles rios ou bacias hidrográficas que estão doando água para outros rios, ou seja, na bacia doadora ou rio doador, acaba comprometendo este uso gerando a escassez, e a escassez levando à diversos conflitos e prejuízos. O que se coloca neste caso, inclusive no brasileiro, é que essa deveria ser a última alternativa e não a primeira com o custo econômico, ambiental e com o prejuízo social elevadíssimo, muito superior ao que o governo coloca, sub-calculando os custos que vai haver nesta obra.

Radioagência NP: E qual seria a alternativa viável?

SB: Como muitos especialistas dizem o problema não é somente da falta de água, mas de gestão de água. Muitas ações poderiam ser feitas como, por exemplo, terminar as diversas obras que foram paralisadas no semi-árido brasileiro e que já consumiram muito dos recursos públicos. O avanço daquele projeto de um milhão de cisternas poderia ser ampliado, é um projeto que não resolve ele sozinho o problema da seca na região, mas que pode ser uma solução, uma altrenativa a esta grande obra de transposição. Esse projeto é uma falácia e não vai levar água a esta população difusa que hoje está excluída e que vai permanecer excluída depois de finalizada esta obra.

Radioagência NP: Em sua opinião o processo de negociação entre sociedade e governo foi claro?

SB: Faz-se esta pergunta: Esta é a melhor opção do ponto de vista econômico, ambiental e social? Todas as análises dizem que não, que existem outras opções inclusive mais baratas. Ainda cabe salientar: quem vai pagar esta conta? Não só da obra, porque da obra nós estaremos pagando com os nossos impostos, mas uma vez este projeto concluído o preço da água vai ser tão caro que naturalmente ninguém conseguiria pagar. Portanto vai haver subsídios e estas informações e este tipo de analise, não está bem colocada tanto nos relatórios colocados à disposição pelo governo, como até mesmo na abordagem que o governo federal faz deste assunto.

Vocês acabaram de ouvir a entrevista com Samuel Barreto, coordenador do Programa Água para a Vida da WWF-Brasil.

De Brasília, da Radioagência NP, Gisele Barbieri

06/07/07
 
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