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O massacre continua: mutilados e famílias das vítimas. Sofrimento e luta por indenizações e assistência médica

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Clique aqui para ouvir (09´30´´/ MP3) - Dia 17 de abril de 1996. Cidade de Eldorado dos Carajás, no Pará. Operação da Polícia Militar mata 19 e trabalhadores rurais sem terra deixa 69 feridos para pôr fim em bloqueio de rodovia. Dez anos depois 144 policiais incriminados foram absolvidos e apenas dois comandantes condenados. Nenhum deles está preso.“Falar do massacre e não falar dos mutilados é não falar do massacre. Aconteceu o massacre, mas ficamos aqui um monte de mutilados, viúvas... Ninguém procurou saber de nada... Começamos a nos arrastar pela vida”.

Antônio Alves de Oliveira, o Índio, de 46 anos, é um dos coordenadores do grupo de mutilados do Assentamento 17 de Abril, onde vivem as 690 famílias que conquistaram a terra logo após o Massacre de Eldorado dos Carajás. Ele levou tiros no calcanhar, joelho e perna, e ainda está com duas balas alojadas.

Reconstruir a vida depois da chacina foi uma tarefa difícil, para ele e para tantas outras pessoas que estavam presentes na curva do “S”, local onde ocorreram os assassinatos. Das 69 pessoas que ficaram gravemente feridas, apenas 20 conseguiram cumprir com a burocracia para entrarem, em 1998, com uma ação de indenização por danos morais e materiais contra o estado.

Apenas em outubro de 1999 a Justiça concedeu uma tutela antecipada determinando que o estado oferecesse toda a assistência médica, inclusive psicológica, como conta o advogado do grupo dos mutilados, Walmir Brelaz. “Infelizmente esta decisão judicial nunca foi cumprida como deveria. Tanto que não foi cumprida, nós tivemos que fazer dois acordos com o estado para cumprir aquela decisão. Ainda assim, o estado não deu o tratamento médico como está determinado pela lei”, afirma.

Negligência e descaso

Para Carlos Guedes, advogado do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no caso, houve claramente o que é padrão em termos de situação fundiária do Pará: a desconexão entre a teoria e a prática. “O drama que as pessoas vivenciam hoje e as seqüelas físicas realmente são todos decorrentes dos ferimentos. Mas foram agravadas e tornadas irreversíveis em função da negligência do governo estadual na assistência médica, isso fora, a assistência psicológica que não existiu”, diz.

E são muitos exemplos. Balas alojadas, perda de audição, destruição de ossos, dores de cabeça. Além do trauma psicológico que estas pessoas possuem. Relembrar o dia é viver de novo.

“Eu fui tirando as balas aos poucos, até hoje tenho três ainda” (Avelino Germiniano, 51 anos)
“Meu ouvido sangra, sai um pus verde.....” (José Carlos Agarito, 28 anos)
“Ele me atirou na perna. Aí eu falei para ele, olha com tanto amor que eu estou pedindo para vocês que não mate gente, que a gente não quer guerra. A gente que terra para trabalhar. Você até me feriu” (José Sebastião de Oliveira, 57 anos)


Procurada pela Radioagência NP, o secretário-executivo de Saúde Pública do Estado do Pará, Dr. Fernando Agostinho Cruz Dourado, encaminhou a nossa equipe para conversar com o diretor responsável pela unidade de saúde do município de Tucuruí, o Dr. José Maria. Ele nos assegurou que é prestado todo o atendimento solicitado pelos pacientes. “Nos foi passada a missão de atender os seqüelados do Massacre de Eldorado dos Carajás no que concernia ao nexo causal. Ou seja, tratar o que fosse decorrente do incidente, correto? Mas nós não preocupamos com isso. Nós contemplamos todos os pacientes com todos os atendimentos necessários”, garante.

O coordenador do grupo dos mutilados, Antônio Índio tem outra opinião sobre o tratamento médico oferecido pelo estado. “Veio um maldito de um tratamento que é uma miséria. Umas consultas bobas que só diagnostica verme. Todos exames, por mais que haja uma bala no corpo das pessoas, eles dão remédio de verme. Quem teve seqüela vai ficar assim. Vai morrer assim. O estado alega que dá tratamento, fala na mídia que dá, mas na verdade não dá nenhum tratamento. Se existisse não teria camarada com bala no corpo e problemas sérios”, afirma.

Dez anos sem indenização

O descaso público com estas pessoas não é diferente do tratamento dado às viúvas e órfãos das vítimas fatais do massacre. Até hoje eles aguardam as indenizações.

Uma das treze viúvas, Maria Alice de Souza, de 42 anos, que perdeu o marido Joaquim Pereira Veras, morto com dois tiros no peito, até hoje não entende quem provocou o massacre e por quê. “Não sei. Quem fez foi a polícia, governo, fazendeiro...ninguém gosta de sem-terra. Todo mundo tem raiva”, explica.

Hoje Maria Alice e outras conquistaram suas terras, mas algumas se encontram sem condições de trabalhar devido à idade e as dificuldades se agravam ano após ano. Raimunda Almeida e seu filho Leandro / Foto: Nina FidelesComo conta Dona Raimunda da Conceição Almeida, de 62 anos, viúva de Leonardo Batista Almeida, morto com um tiro na cabeça. “Não estou passando bem, me alimentando bem porque não posso. Mas estamos conseguindo. Não é bom, mas estamos comendo. Quero justiça”. Elas pouco falam, mas carregam um sofrimento muito grande e uma vontade imensa de se ver fazer a justiça.

Até hoje nenhuma indenização pelo estado foi paga. Nem para as viúvas e nem para os mutilados. Segundo o advogado Walmir Brelaz, o valor inicial das indenizações que ainda tramitam na justiça foi reduzidos em 100%. “Eles estão vivendo no completo abandono. Como eles dizem, o massacre ainda continua. Porque a partir daquele momento a vida deles só piorou, cada vez mais”, afirma.

Depoimento de sobrevivente

 Meu nome é José Carlos Agarito Moreira. Eu sou sobrevivente do Massacre de Eldorado dos Carajás, de 1996. Espero um dia aconteça um julgamento e que eles sejam presos. Estamos aí sem trabalhar. Sou surdo, estou com a bala alojada na cabeça ainda. Se tudo der certo, vou receber a indenização. Se eu não receber, meus filhos recebem, meus netos. E estamos na luta.

 

Leia e ouça todos os programas da série especial "Massacre de Eldorado dos Carajás: 10 anos depois":

Programa 1 - O dia 17 de abril. Sobreviventes relatam histórico do Massacre

Programa 2 - Impunidade no caso. Passo-a-passo das investigações e julgamentos do crime

Programa 3 - O Massacre continua: mutilados e famílias das vítimas. Sofrimento e luta por indenização e assistência médica

Programa 4 - A vida dos sem-terra: Assentamento 17 de Abril. As conquistas hoje das 690 famílias

Programa 5 - Estado e latifúndio como patrocinadores da violência. Os assassinatos no Pará e as ações do poder público e fazendeiros

Programa 6 - Vergonha para o Brasil. Repercussão nacional e internacional

Programa 7 - Agronegócio: progresso ou destruição?. O modelo de produção, trabalho escravo e conflitos por terra

Programa 8 - A polêmica reforma agrária na Amazônia. Especialistas debatem desconcentração da terra e da renda

 

Ficha técnica:
Enviadas especiais ao Pará: Beatriz Pasqualino e Nina Fideles
Produção: Sofia Prestes
Sonoplastia: Leandro Gregorine
Diagramação gráfica no CD: Caroline Siqueira Gomide
Fotos no CD e na página da ANP na internet: Nina Fideles e Beatriz Pasqualino
Foto de capa do CD: Sebastião Salgado

Agradecimentos especiais

Assentamento 17 de Abril, Raimundo negociador, Isabel, Dimas, Maria José e crianças, Antônio Índio, Guto e Edson, Carlinhos (Rádio Resistência FM), Gouveia, Pepe, Sueli e Glauco, equipe ANP.