30 anos de luta dos trabalhadores brasileiros
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(7'30'' / 1,7 Mb) - Em 2010 completam-se 30 anos do maior período de movimento da história de luta recente da classe trabalhadora brasileira. O ano de 1980 ficou conhecido pelas greves e movimentos massivos, principalmente em torno dos metalúrgicos do ABC. Milhares de trabalhadores se organizaram e enfrentaram os patrões. O objetivo era evitar o rebaixamento dos salários, que diminuía proporcionalmente ao aumento da inflação.
Em razão do dia 1º de maio, dia de luta dos trabalhadores de todo mundo, o presidente da Federação dos Metalúrgicos da CUT do Rio Grande do Sul, Milton Viário, conversou com a Radioagência NP sobre a trajetória de luta dos trabalhadores nos últimos 30 anos. Viário disse confiar em um novo reascenso espontâneo dos trabalhadores brasileiros em razão do aumento da exploração do trabalho, sentida diariamente nas fábricas e nas empresas de todo o país.
Radioagência NP: Milton, na sua avaliação, o que é o 1º de maio hoje para os trabalhadores?
Milton Viário: Neste ano estamos celebrando o 1º de maio exatamente como ele nasceu, ou seja, o grande tema que originou essa data histórica para a classe trabalhadora foi a luta de nossos antepassados, operários e trabalhadores pela redução da jornada de trabalho [que era de 13 horas em 1886]. Agora em 2010, mais uma vez estamos organizando as nossas lutas em função da redução da jornada de trabalho. O dia 1º de maio de 1886 guarda proporções diferentes, mas nos traz o tema da redução da jornada de trabalho, que tem a ver com o tempo que os trabalhadores dedicam ao trabalho na produção da riqueza, e quanto os trabalhadores são explorados.
RNP: Que momento você destacaria nessa história recente como mais positivo em relação à luta dos trabalhadores brasileiros?
MV: No final dos anos 80 tivemos um período de intensidade de greves, com 3.9 mil greves registradas, com a quantidade de 20 milhões de trabalhadores que cruzaram os braços em lutas. E o significado concreto, social e econômico foi a conquista do artigo 7º da Constituição de 1988, que é um artigo específico dedicado às reivindicações ou a regulação do mundo do trabalho. E uma das maiores conquista que a classe trabalhadora teve até hoje foi a Constituição Federal.
RNP: E o que você destacaria como um momento de fragilidade desta luta?
MV: Evidente que o Brasil mergulha no projeto neoliberal e o Fernando Henrique [é] o que tivemos de mais trágico para a classe trabalhadora. [Houve] uma grande desestruturação do Estado, desestruturação da base econômica estatal que eram as grandes empresas estatais. Também o governo do Fernando Henrique Cardoso vai provocar a maior flexibilização da legislação trabalhista e é um período em que nós amargamos grandes retrocessos do ponto de vista social e econômico. A nossa incapacidade de reação tem a ver com outra coisa, que é a reestruturação produtiva, que mudou o padrão de organização e gerenciamento do mundo do trabalho e o movimento sindical não conseguiu responder, pois é uma mudança profunda nas relações que exige também uma nova organização do movimento sindical.
RNP: Com a chegada do PT ao poder, o que muda para os trabalhadores?
MV: Nas questões trabalhistas e previdenciárias, que foram onde tivemos os principais déficits durante o governo FHC, o governo Lula pára o processo de flexibilização [dos direitos]. Acho que ficou uma agenda [aberta] no governo Lula, que é a recuperação dos direitos perdidos durante o governo FHC e que nós não conseguimos avançar.
RNP: O Lula cumpriu as expectativas dos trabalhadores?
MV: Eu acho que ele cumpre em parte é esse processo de segurar o processo neoliberal no Brasil, reade quando o papel do Estado, e a geração de oito a nove milhões de novos empregos com carteira assinada, que ajuda a diminuir a cota de desemprego e facilita a luta para nós trabalhadores. A gente está sentindo uma retomada das mobilizações, um pequeno reascenso da luta de massas. Os reascensos que tivemos [em 1978, 1979 e 1982] levaram vários anos de preparação e [atualmente] estamos nos anos de preparação.
RNP: Nos últimos 30 anos o movimento da classe trabalhadora esteve sob o comando da Central Única dos Trabalhadores (CUT), cuja maioria de seus dirigentes são militantes do PT. Como você avalia a trajetória da CUT nesse período?
MV: Toda essa central sindical e seus militantes se vê numa relação muito tímida de mobilização. Eu avalio que nós precisávamos estar num processo de mobilização e organização de classe muito mais intenso. E frente ao governo Lula fica sempre o dilema da mobilização atrapalhar, prejudicar ou beneficiar o governo. Não teremos mais no governo o presidente Lula e vejo com isso uma facilidade muito maior de movimentação, mobilização e do próprio movimento sindical se postar de uma maneira diferente, quem sabe um pouco mais ofensivo.
RNP: E qual a perspectiva de organização que se abre entre os trabalhadores brasileiros diante da crise econômica?
MV: Eu vejo uma boa perspectiva para o movimento sindical porque nós estamos sentindo dentro das fábricas crescer a rebeldia dos trabalhadores, o descontentamento com a processo de exploração que aumenta, cresce o processo de vigilância e controle dos trabalhadores,aprofunda-se a exploração. Eu acho que teremos nos próximos anos um movimento de espontaneidade maior, principalmente entre os trabalhadores urbanos e industriais e espero com isso o reascenso e a retomada das lutas.
De São Paulo, da Radioagência NP, Aline Scarso.
01/05/10
